domingo, 2 de abril de 2017

pequenas brasas

os restos de seu calor ainda me aquecem
como pequenas brasas lutando pela vida
já não consome tudo, combustível nulo
mas sua fumaça entope tudo que há
e cada pira é uma dor
e cada chama é um amor
e cada labareda é um esforço.

sexta-feira, 17 de março de 2017

homem

sou testemunha da tua evolução
vi você transformar sua pequenez
em uma grandeza de alma invejável

ontem era rosado, redondo, frágil
deveras impulsivo, impossível
como se houvesse grande força em ti

o tempo e a vida te calejaram
fizeram-te homem, sábio, poderoso
meu sonho de mim já realizado por você

tuas asas abriram e partiu
a rumos que só você conhece
com a cabeça erguida e focada
o horizonte sempre te esteve perto

teu coração cresceu e floresceu
salpicado de bondade sem igual
de fibras tão fortes quanto aço
aguenta até bala de canhão

tua alma se revelou e influenciou
todos que o amam com teu amor
ousa fugir de ti, de tão generosa
mas ela te pertence, e nada a roubará

teus olhos ofuscam o mundo que vê
tão pequeno diante do que tem em si
tão mais frio e cruel e marcado que ti
tão indigno de você quanto todos nós

com palavras talvez eu possa dizer
a importância da tua vida na minha

com poesia talvez eu posso mostrar
o que você é, que talvez ainda não vê

és um homem, meu sangue, e a ti invejo.

sábado, 11 de março de 2017

o escudo

de pouco em pouco o mundo retorna
de muito em muito tudo de novo treme
muito é o que se entrega
pouco é o que se recebe

há quem não confie em certas pessoas
ou no tempo instável e volátil
digo que se deve duvidar da paz
uma víbora farsante e mascarada

o conflito diz para esperar a artilharia
baleado, explodido, totalmente morto
nada que surpreenda um soldado
que tanto luta contra si mesmo

mas na tranquilidade queremos rosas
uma maré baixa e serena como sonho
a brisa batendo gentilmente ao rosto
e não um vento te esfolando dos ossos

quando baixar a guarda? já não sei
toda vez que não me defendi fui atacado
o sangramento durou anos

quando deixar as armas? talvez nunca
há de se perder nessa tormenta de balas
uma cacofonia constante e faminta

quando esperar o fim? não parece perto
aguardar o sol raiar com vida
e a noite partir para sempre

cansa os braços levantar esse escudo.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

só os olhos têm cor

há quem não creia em divindades
ou em heróis galantes ou salvadores
e que também não têm fé nas pessoas.

a confiança é mais intima que sexo
mais escassa que o amor do mundo
e mais dolorosa que uma facada.

queria eu ter as palavras certas sempre
ou as atitudes ideais do momento
mas parece que nada é correto.

tanta falta tenho de confiar em mim
e naqueles que um dia amei de coração
trazer de volta o afeto e o calor humano
e recuar a sombra da distância entre nós.

muito fiz e muito não, tal como todos
uma ilusão constante e sem fim claro
ainda é difícil ver que tanto tempo depois
uma criança ainda existe dentro de nós.

o mundo ideal rui diante do cerco
e fraqueja perante essa artilharia feroz
de verdades e inverdades bombardeadas
e detonadas no núcleo do nosso ser.

não, não sou vil como achava antes
há mais em mim que o mundo quer ver
o sangue, o suor, as lágrimas, sacrifícios
há mais de mim no mundo do que quero.

o mundo é cinza e só os olhos têm cor
os poucos refúgios para nos apegar.

os sorrisos são brancos ou fechados
nada além deles importa.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

inferno paradoxal

constantemente inconstante,
incessantemente cessante,
cada minuto que se alastra.

não lembro mais da harmonia,
ou do que define tranquilidade,
só uma efemeridade eterna.

um segundo dura várias horas,
no terceiro dia continuo no quarto,
debatendo internamente na cama.

não vejo fim nem começo nesse ensejo.
foi-se tanto que mal lembro as coisas.
e os dias somam ao invés de subtrair,
e o mundo subtrai ao invés de somar.

as costas ardem de estar deitado,
e dos punhais que ainda estão presos.
esqueço-me dos momentos passados.
e talvez até dos sentimentos pedidos.

quem me dera ser deveras livre,
tanto quanto sou nos sonhos.
à noite fujo e cresço na fantasia.
de dia estou estagnado no pretérito.

nada muda, tudo está igual como antes.
as marcas nas mãos ainda doem.
o sono é inquieto e revelador.
a vida é aquela bosta.

apenas mais um paradoxo
para a libertação definida
por mentes do passado
que se perdeu no tempo
esquisito, inútil e fraco
como as almas que ele toma
para o inferno paradoxal dele.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

farelos

falso quadro, falsa fala
que rouba a noite e o sol
das mãos que os conquistaram.

frágil ego, frágil poder
que tanto fala e pouco faz
que tanto manda e tanto esconde.

fraco amor, fraca verdade
um véu de mentirosas juras
feitas às máscaras em queda.

ódio/vingança

nunca me vi como capaz de ódio.
prezo pela bondade que me ensinaram
e o amor à humanidade que descobri
quando comecei a ver quem eu era.

mas agora entendo quem odeia.
não é o fogo como a fúria
nem uma tempestade como a mágoa
e é mais uma lâmina dilacerando tudo.

cheguei a ponto de odiar, ou perto.
minhas tripas doem de tanto retorcer
minha cabeça lateja por passar noites
gritando ódio, ódio, ódio! quanto ódio.

a respiração acelera como o coração.
estou tão exausto de agir, de sentir
mas não canso de me destruir
como sempre, como pra sempre.

não quero isso.
não mereço isso.
não espero isso.

quero vingança por tudo.
mereço justiça por tudo?
espero retribuição por tudo!

mas quero que acabe!
mas mereço aquela paz!
mas espero amar de novo!

onde estou, senão longe de mim?
quando me tornei uma caricatura?
um boneco vodu que mais parece ouriço
de tanta agulha fincada na carne.

dedico essa inquietude a eu próprio.
que bom que deus não existe
porque matá-lo-ia com minhas mãos
para não destruir a mim mesmo.

quanto individualismo, quanta hipocrisia!
será que o mundo é deveras arrogante
a ponto de ser cego, surdo, ignorante,
a tudo que ocorre nele?

eu? quem sou eu, não?
pergunto isso honestamente
porque diabos não sei!
talvez apenas um solitário que vê.

não quero mais ver.
não mereço mais ouvir.
não espero mais abraçar.

quero sorrir de novo.
mereço viver de novo?
espero gritar de novo!

e quero que me ouçam!
e mereço que me dêem atenção!
e espero que compreendam como eu!

estou só, como sempre estive.
eu e mais um infinito dentro de mim
de inomináveis sentimentos e sons
que foram silenciados antes do berro.

odeio, mas não quero odiar!
o ódio é um veneno corrosivo
destrói tudo que toca e consome almas
que mereciam nada além do amor.

ah! como corta! como expande!
a sensação inexplicável a todos
que não sejam eu ou partes de mim
fugidas da minha integridade moral.

quero fechar os olhos e dormir, dormir!
mas o ódio, maldito ódio! que me acorda
me nutre e me alimenta e me satisfaz
como o néctar dos falsos deuses.

quero vingança.
mereço vingança.
espero vingança.

quero me vingar.
mereço me vingar?
espero me vingar!

não quero pela dor!
não mereço ser diabólico!
não espero que seja uma punição!

o que anseio pelo ódio e a vingança
não passa de um desespero pela paz.

a humanidade é uma massa de partes
tão maiores que o todo aglomerante.